Há
um fetiche do corpo. Um
corpo "capa de revista" é de papel, o nosso é
constituição
orgânica — carne e osso — mas queremos que ele seja mais “ideal”
que “material”, mais ter do que ser. O
corpo muda, porque a única coisa que permanece é a mudança. De
sete em sete anos a epiderme se renova, a moda muda, mesmo sendo a
mesma e o corpo continua sendo uma dobra, uma curva.
Houve no início do século 20 uma “invenção” do corpo,
primeiro de forma psicanalítica, depois filosófica e, finalmente,
antropológica. Neste
século, nunca se falou tanto em corpo, de academias, de dança, de
luta; o corpo é modelado para parecer sempre jovem, atlético,
favorecendo a estética e, outras vezes, a saúde ou a propriedade
divina, porém, esses corpos alinhados, asseados, vigorosos e
robustos, nem sempre se relacionam bem com outros corpos e com o novo
milênio.
Cada
corpo é uma combinação de tato, paladar, olfato, visão. O corpo
conserva a herança de gerações passadas, têm várias linguagens e
sensações, mas precisa da supervalorização pra manter uma pseudo
auto estima que esquece de cuidar dos órgãos para cuidar do caráter
idealizador, valorizamos em demasia a visão que capta da sociedade
do espetáculo, da mídia corporativista burguesa. Não nos ensinam
que um dia nosso corpo será lixo ou se tornará pó. A fetichização
do corpo prejudica o estudo direcionado ao próprio corpo, a mente,
aos hábitos, a moral, apenas em prol de superstições, modismos e
contra pecados.
Ocupar-se
consigo mesmo seria uma forma de privilégio; o texto de Platão, o
diálogo Alcíbiades, mostra que Sócrates é apresentado como alguém
que estimula os outros a ocuparem-se consigo mesmos, ou seja, assume
o papel de despertar os outros a terem cuidados consigo mesmos.
Alcibíades é um jovem de família com status, mas que perde seus
pais. Seu tutor é Péricles, que não soube nem educar seus próprios
filhos, alguém que nada pode lhe ensinar, pois não possui
características e comportamentos que pudessem ajudar a Alcibíades a
cuidar de si mesmo, pois ele próprio não o faz. O jovem Alcibíades
é dono de uma fortuna e também é muito belo, sendo muito
assediado. Porém, ao envelhecer acaba por ficar sozinho, ou seja,
quem se aproximava de Alcibíades o fazia por interesse material, por
seu status e pela sua beleza. Quando o envelhecimento chegou e a
beleza já não era a mesma de quando jovem ele passou a ser algo
desinteressante para aqueles que o rodeavam. No entanto, percebe-se
que Alcibíades não soube cuidar de si mesmo achando que a fortuna e
a beleza fossem suficientes. Sócrates deixa muito claro a Alcibíades
para que ter cuidados consigo mesmo aos cinquenta anos seria tarde
demais, pois esses cuidados deveriam iniciar na juventude. Assim, o
cuidar de si seria uma relação transcendente, singular, de corpo
para corpo, aos objetos que dispõe, ao seu próprio corpo...
O
corpo é seu e não pertence às regras das mídias sociais ao “sim”
e “não” do outro que não cuida de você. Busquemos nossa
liberdade corporal, contra as prisões que encarceram nossos corpos.
O corpo como expões Saramago, é a intermediação mais direta entre
o ser e o outro. Também é aquilo que nos apegamos, a ponto de nos
aprisionarmos a nós e aos outros, vontade de ter o outro pra si, a
crença da ressurreição é um exemplo de fetiche do corpo, um apego
a esse adorno efêmero.
O
corpo é lugar de lembranças e esquecimentos, de adestramento, de
disciplina,de déjà
vu,
de loucura, de emoção, de razão, de livre arbítrio, de GPS, de
vigilância, de direitos, de deveres, de regime, de leis, de
desafios, de conflitos, de crises, de revolta, de julgamentos morais,
de inscrições. O corpo é transitório, mutável, histórico,
cânone, artístico. O corpo é doente, é discriminado, é preso, é
maltratado, possui padrão. O corpo é e não é. O corpo é um
corpo.
TEXTO DE CARLIANE
“A
Igreja diz: O corpo é uma culpa. A Ciência diz: O corpo é uma
máquina. A publicidade diz: O corpo é um negócio. O corpo
diz: Eu sou uma festa.
Eduardo
Galeano"

Platão afirma que o corpo é a prisão da alma, o cristianismo através de Agostinho de Hipona ou Tagaste retoma esta ideia e reelabora o dualismo corpo/alma com outra concepção.
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